O clima não era nada amistoso depois de tudo que havia acontecido entre ambos. Além do mais, a brutalidade norteava aquele instante de enfrentamento de duas pessoas amigas há tanto tempo.
Eram pessoas brutas, incultas nas letras embora sábias na troca de acusações e nas interpretações da vida simples. Verdadeiras!
Ali não importava os floreios da língua, mas os falares do povo humilde, com a intelectualidade natural do matuto que sabe traduzir sentimentos com a força das suas expressões. Era um diálogo insólito, mas sincero, apesar de cacofônico.
– Discupi intão. – Afirmou Joaquim depois que o amigo foi tomar satisfações, sentindo-se magoado com o acontecido recente.
– Tu num tinha o direito de mi atacar por trás.
– Má rapai, eu só brinquei daquele jeito pruque tu falô qui num ia me pagá.
Finalmente entendi que se tratava de calote ou coisa semelhante. Continuei escutando, disfarçando riso e escancarando bem os ouvidos.
– Aquele fela da puta do Zé Gomi ficou gozano o tempo todo na minha cara.
– Num sei pruque tu tá assim. Quem meteu o pau em você pur ditrais foi o Manezim de seu Tota. E tu num disse nada.
No meu entendimento a coisa começava a se complicar. Se eu não fosse um bom entendedor dos falares daquela gente simples eu pensaria outra coisa.
– Cê besta, rapais, pensei qui tu num ia ficá chatiado. Foi só u’a brincadêra.
– Toma essa merda de dinheiro. Tão cedo num vô isquecer o qui você me fez.
Aquilo foi uma tapa no amigo que se sentiu muito mal em ver uma amizade tão antiga prestes a ser terminada por uma brincadeira. Naquela hora valeu a interferência de terceiros que conheciam os dois e resolveram apaziguar os ânimos. Conseguiram que voltassem às boas e se dessem um abraço afetuoso se seguindo um pedido de desculpa.
– Então, meu amigo, discupi se eu lhe feri por trás e te machuquei por dentro!
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